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21 de jul de 2009

O melhor texto, no melhor blogue

Entrando sem pedir licença; sem a autorização dos autores - do blogue e do texto, eis o artigo inaugural do André Falavigna lá no Cruz de Savóia.


Expressões Altamente Sapienciais

Se vocês estiverem lendo isto aqui, é porque o Pedro Bondaczuck resolveu insistir no erro. O que, afinal de contas, terá sido bom para todo o mundo. Não sei exatamente o porquê, mas achei que ficava bem falar assim: “vai ficar bom para todo o mundo”. Tá aí expressão altamente sapiencial e que se aplica a uma infinidade de situações de todos os gêneros e níveis. Exemplo: seja lá o que se resolva fazer de Sarney e do Senado, não tenham dúvida: vai ficar bom para todo o mundo. Se Muricy Ramalho acertar ou não com o Palmeiras, sempre haverá quem diga de uma ou outra decisão – ou de ambas – que a coisa ficou boa para todo o mundo. No Cambuci, na Rua Muniz de Souza, lado dos cortiços, há certa boca vigente e fumegante (a cada ano mais vigente e menos fumegante) a apenas cinco quadras do 6º distrito policial e, portanto, muito próxima ao Batalhão da Polícia Militar alocado em frente ao antigo campo do Gremi, agora elefante branco do INSS. E lá, na tal boca, as coisas ficam boas para todo o mundo – ou quase – há algo em torno de quatro décadas.

Estou certo de que, ao longo desse período, muitos moradores da região devem ter levado às autoridades inúmeras queixas quanto à presença de tão heterodoxo comércio ali, imbricado em área residencial e urbana repleta de responsáveis pela crise mundial, pelo desmatamento amazônico, pela fome terceiro-mundista e, quem sabe, até mesmo pela gripe suína. Afinal, nem todo o mundo é policial ou bandido e – francamente – você só consegue perceber o quanto as coisas vão bem ou mal para todo o mundo a partir de certos pontos de vista. Reconheçam, cambada: é tudo “questão de ponto de vista”, não é mesmo? Ahá! Outra expressão cuja sapiencialidade chega às raias da sapiência mais sapiencial (perdoem-me, mas essas palavrinhas com “sapiência” no meio andam-me irresistíveis).

A velha e boa “é tudo uma questão de ponto de vista” é preferencialmente aplicada por profissionais experimentados. Não é para amadores. Vejam como tudo pode ficar complexo: imaginem uma hipótese segundo a qual alguém resolve barbarizar meia dúzia de casas de classe média e, por falta de experiência e tino, termine por passar fogo em dois ou três pais de família, desses que são responsáveis pela gripe mundial e, por último mas não somente, pela crise suína. Notem que se trata apenas de uma hipótese, mas de uma hipótese realista a dar com pau. Muito bem: nesse caso, até mesmo os conceitos de pai e de família podem ser analisados sob certos pontos de vista bastante incomuns, de modo que a articulação de ambos seja mais ou menos impossível desde qualquer ponto de vista. E, como é tudo questão de ponto de vista, os sujeitos que tivessem sido apagados apenas teriam quitado, em parcela única, à vista e pontual, certa fatura que “é de todos nós” – e que, portanto, era deles também.

Compreendem? A responsabilidade é “de todos nós”, e já temos mais outra expressão sapiencial que ainda contribuirá com meu enjaulamento por homicídio extremamente doloso e inqualificavelmente qualificado. É que “todos nós”, é triste, coloca-me na história. Neste tipo de história: ursos polares estão a ponto de entrar para o movimento dos sem-teto? Metade dos seis mil idiomas falados no mundo pode desaparecer? Foi descoberta nova seita pentecostal, fundada e liderada por pastores pederastas? Dráuzio Varella não gosta de comer ao lado de fumantes? Sílvio Santos judia da sósia anacrônica de Shirley Temple, que chora? O Ministério Público acha que os pais alimentam mal demais os filhos e bem demais o Mac Donald’s? Ora, a responsabilidade é de todos nós! Quer dizer, é minha também; quer dizer, se um dia desses Ursos de Jeová, polares, dependentes de nicotina e desvairadas, invadirem meu velho sobrado cambucentense para me passarem na faca por conta da deposição de Manuel Zelaya, não vou ter muito do que reclamar – sobretudo sob certos pontos de vista segundo os quais tudo ficará bom para todo o mundo porque, afinal de contas, “comigo é assim”.

“Comigo é assim” é, aliás e talvez, a melhor de todas as expressões sapienciais. Muitos têm usado “comigo é assim” para quase tudo, na maior confiança e obtendo os melhores resultados. Com “comigo é assim”, o assunto estará sempre encerrado. A Polícia Militar de São Paulo, parece-me, incluiu o “comigo é assim” no treinamento da soldadesca. A Civil, idem para o pessoal de campo. A CET, então, nem se fala: a imensa maioria das multas emitidas, na Capital, é na base do “comigo é assim”. O “comigo é assim” contaminou o Senado todo, inclusive o Gabeira, que meteu lá a filha para ir não sei onde, de avião, em pleno exercício do “comigo é assim”. Lula, chefe do governo e estado brasileiros, é quase que patrono do “comigo é assim” – especialmente quando se trata de lidar com o próprio partido. A Dilma é candidata ao cargo dele, Lula – se boa ou má, não vem ao caso – porque com ele é assim. Se, num dia Mercadante pede o afastamento de Sarney, o ímprobo, somente para, no dia seguinte, implorar pela permanência do estadista na posição da qual queria, um dia antes, vê-lo afastado, é porque Lula voltou de viagem e, com ele – ora bolas – com ele é assim. Não sei por que Ronaldo, o Fenômeno, não pensou nisso a tempo: foi pêgo com a mão na massa, três travecos a tira-colo, mais acusações de espancamento e solicitações lisérgicas? Dane-se. Bastava ter mandado dizer à turba:

- Comigo é assim!

E pronto. Tudo resolvido. A mesma providência, nos dias de hoje, teria livrado a cara de muita gente boa há não tantos anos. Fernando Collor, por exemplo: denunciado por prevaricação, tivesse o insight do “comigo é assim” e salvaria a faixa. Era só ter se postado diante das cascatas da Casa da Dinda, descabelando-se sobre os reflexos reluzentes das lagoas ornadas com aquelas carpas improváveis, a estola de chinchila da Rosane (insisto, até hoje, que essa tinha uns coxões que não eram de se jogar fora) em punho, e berrado algo como:

- Minha gente! Comigo é assim!

E estaríamos conversados. Eu mesmo aderi ao lema. Não tem jeito de dar errado. Vejam só:

Quase um ano sem publicar necas de pitibiribas, blogues largados, promessas descumpridas sem a mais mínima satisfação aos leitores e editores? Ora, e daí?

Comigo é assim!


Esse artigo também é publicado no site Literário.

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